Depois de alguns anos tirando férias para trabalhar ou estudar em casa, resolvi que esse ano minhas férias seriam dedicadas a fazer porra nenhuma e, se possível, viajar. Em função disso, desde dezembro de 2008 eu e a namorada nos dedicamos a planejar a tal viagem. Quer saber como foi? Então leia!
A espera parecia interminável. É impressionante a expectativa que uma viagem internacional gera, ainda mais em um sujeito como eu, novato em termos de “ida ao estrangeiro” ou, como preferem os autores de direito internacional, “países alienígenas”, termo ridículo que eu só posso atribuir a uma vontade incontrolável de ser “diferente” ou, o que é pior, “pseudo-intelectual”, algo que odeio veementemente.
O fim-de-semana que antecedeu a data de embarque foi dedicado aos últimos preparativos burocráticos/financeiros/logísticos próprios desse tipo de evento: ida ao banco, pagamento de contas etc. Outro cuidado importantíssimo foi levar a mala para a casa da namorada, já que: (i) meu carro ficaria em casa durante a viagem; (ii) o domingo seria dedicado a passar com minha mãe, que ficaria sozinha durante 1 semana; e (iii) a ida para o Galeão teria como ponto de partida o QG da Família Nunes Leite, na terra de Noel. Tudo perfeitamente executado: com nosso vôo partindo às 13h30 de segunda-feira, teríamos toda a tranqüilidade do mundo, exceto por um detalhe…
… decididos a adiantar toda a parte burocrática do embarque, eu e a namorada resolvemos fazer o web check in e… DESCOBRIMOS QUE O NOSSO VÔO HAVIA SIDO ANTECIPADO PARA AS 10H30 (!!!!), o que nos obrigaria a chegar no aeroporto às 7h30, o que, por sua vez, me obrigava a sair de casa, em Jacarepaguá, às 6h40, o que, por outro lado, me obrigou a acordar às 6h, o que, evidentemente, me deixou muito puto com as Aerolineas Argentinas, que sequer se deu ao trabalho de comunicar a alteração do horário do vôo.
Tendo acordado às 6h, conforme planejado (?), constatei como é difícil encontrar a porra de um taxi nesse horário. É impressionante que as pessoas andem tanto de taxi e ainda consigam reclamar que não têm dinheiro. Taxi é caro, muito caro… na minha opinião, uma contradição, mas enfim, o mundo está cheio delas, não é mesmo?
Depois de algum tempo, acabei conseguindo um taxi. Só que o motorista era um velhinho muito do lerdo, cara. Muito mesmo. Sabe aquele cara que te obriga a pegar ônibus por tabela? Pois então, o velhinho do taxi foi o tempo inteiro pela direita, atrás de tudo que fosse ônibus que aparecesse no caminho. Enquanto todo mundo passava tranquilamente pela esquerda, lá ia o cara pela direita… minha tensão pré-atraso aumentando e minha timidez/passividade para reclamar do modus operandi do coroa impedindo qualquer manifestação. Tudo isso se somando ao fato de que era uma segunda-feira normal de trabalho para todo mundo que não estava de férias, o que em uma palavra quer dizer TRÂNSITO.
Quando finalmente cheguei à casa da namorada, foi a hora de dar oi/tchau prá todo mundo, pedir um novo taxi que nos levasse ao Galeão, já que a sugestão da namorada de aproveitarmos o mesmo carro que me levou até lá foi prontamente rejeitada por mim, e dar aquela reforçada no café-da-manhã, que a essa hora estava bem próximo de expirar.
A ida para o aeroporto foi tranqüila, mas “tranqüila” aqui é algo para ser entendido “em termos”, pois eu não consigo ficar calmo sabendo que em alguns instantes estarei ingressando em um bólido super pesado, cheio de pessoas igualmente pesadas, e que, apesar disso tudo, conseguirá se desprender do chão e passar aproximadamente 04 horas a uma altitude sinistra prá caralho… resumindo: eu não gosto de aviões, como vocês podem perceber. Nem me venham com esse papo de que é o meio de transporte mais seguro que existe e que as estatísticas blá-blá-blá wiskas sache… não gosto e pronto. É simplesmente uma questão de saber que eu não pertenço ao espaço aéreo. Tanto é que eu nem asas tenho…
Feito esse rápido parêntese, voltemos ao relato. Chegamos rapidamente ao aeroporto e eu, que já havia me preparado psicologicamente para ingressar no avião às 10h30 da manhã, fui surpreendido por mais uma pegadinha da Aerolineas Argentinas: nosso vôo, que estava marcado para as 13h30 e foi antecipado para as 10h30, atrasou e sairia às…
13H30!!!!!! Hahahahaha!
Só que, estranhamente, se antes o nosso vôo sairia às 13h30 e nós, tranquilamente, pegaríamos uma conexão em Buenos Aires para Santiago por volta das 17h, agora, com o MESMO vôo saindo no MESMO horário inicialmente previsto, corríamos o sério risco de perder a conexão (?!) e, por isso, fomos realocados em um vôo da Gol/Varig partindo diretamente para Santiago às 18h!!! Isso tudo com a garantia de que chegaríamos mais ou menos no mesmo horário previsto inicialmente… tá bom, só se fosse de foguete ou por teletransporte, pois, para isso, o vôo Rio de Janeiro/Santiago teria que ser feito em mais ou menos 45 minutos…
Ok, fingi que acreditei.
Rápido detalhe: ninguém contou prá gente, mas o tal vôo – descobrimos depois – faria uma escala em São Paulo. Nessa hora, minha mente doentia e medrosa atentou para um detalhe pitoresco: fazendo uma escala inicialmente não prevista em São Paulo, isso significava que nossa viagem contaria com um pouso e uma decolagem a mais. Logo, se eu já estava me cagando de medo de ter que fazer 04 decolagens e 04 aterrissagens (Rio/Buenos Aires/Santiago e Santiago/Buenos Aires/Rio), imaginem a felicidade que tomou conta de mim com essa novidade…
E lá fomos nós para o hotel do Galeão esperar o horário do nosso famigerado vôo. Tomados pelo tédio, eu e a namorada decidimos passear pelo saguão e demais dependências do lugar, constatando o que qualquer um sabe sem precisar sequer colocar os pés por lá: não existe nada para se fazer em aeroportos. Durante o nosso animado passeio, verifiquei que um número considerável de pessoas circulava de máscara por causa da tal gripe suína. Naquele momento, embora dispuséssemos também do equipamento da moda, decidi que não tomaria qualquer tipo de precaução contra o vírus. Ora, faça-me o favor, vocês realmente acreditam que aquela mascarazinha de feltro é capaz de impedir o contágio por um vírus que se transmite pelo simples toque? É claro que não! Estando convencido de que o artefato não representaria proteção alguma, deixei-o guardadinho na bolsa da namorada, que também optou por não usar a máscara.
Quando finalmente embarcamos, por volta das 17h, era hora da orgia consumista do free shop! Perfumes e mais perfumes comprados para familiares e amigos aproveitadores, ops, queridos. Cientes de que ainda passaríamos pelos free shops do Chile e da Argentina, eu e a namorada decidimos que os nossos seriam comprados depois que pesquisássemos os preços, já que o Chile, tendo sido o primeiro país da América do Sul a quebrar barreiras alfandegárias, prometia ser um paraíso tórrido para o nosso rico dinheirinho. Ledo engano! Conforme comprovaríamos mais tarde, o free shop de lá é caríssimo! Não vale nem um pouco a pena comprar nada por lá. Os preços eram, em média, US$ 3.00 mais caros do que no Brasil mas, em alguns casos, a diferença chegava a assombrosos US$ 10.00! Um absurdo! Na Argentina, os preços eram idênticos aos do Brasil.
Mas então entramos no avião, momento em que a minha tensão atinge o nível máximo e eu fico simplesmente beeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeem quietinho… sério, sou um cagão relax. Morro de medo, mas não dou vexame. Nada de sair por aí gritando escandalosamente que nem a Maísa quando vê um molequinho pintado…
Essa tensão, que já era grande o suficiente, foi aumentada pelo filho da puta do piloto da Gol/Varig, que fez o favor de falar com a gente exatamente assim: “Boa noite, senhores passageiros. Meu nome é piloto filho da puta da Gol/Varig. Nosso vôo até São Paulo terá a duração de aproximadamente 50 minutos. Gostaria de dizer que as condições de vôo eram as ideais, mas em função de uma chuva em São Paulo, não são”.
!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Cara, isso não se faz… isso é feio… nessas horas você mente e diz que está fazendo sol, mesmo que esteja tudo escuro lá fora… olhei para a namorada e ela, penalizada e sabendo do que se tratava, pegou na minha mão e disse que ia dar tudo certo. Ooooooooooooh, ti bunitim… mas mesmo assim eu não relaxei.
Chegamos a São Paulo e, depois de uma rápida parada para embarque de novos passageiros, fomos em direção a Buenos Aires. PODEM INCLUIR AQUI TODA AQUELA PARTE SOBRE A TENSÃO ATINGINDO O NÍVEL MÁXIMO, POIS CADA DECOLAGEM E ATERRISSAGEM TÊM O MESMO EFEITO SOBRE ESTE QUE VOS ESCREVE.
Depois de mais ou menos 2h20 de vôo, chegamos aos céus de Buenos Aires. Sim, aos céus, porque ao chão de Buenos Aires a gente só conseguiu chegar depois de 25 minutos sobrevoando aquela porra de aeroporto de merda enquanto aguardávamos autorização para pousar. Nessa hora eu só conseguia pensar que argentinos são uns cornos, que Eva Perón era uma tremenda de uma piranha, que Diego Maradona tinha que dar uma cheirada tão forte, mas tão forte, que a quantidade de pó inalada o fizesse explodir que nem milho de pipoca, que Carlos Gardel era um pederasta enrustido, que… enfim…
Enfim, descemos no tal aeroporto e, depois de um tempo, partimos para mais uma decolagem, dessa vez com destino a Santiago, num vôo que durou 1h45 e foi cheio de turbulência por causa daquela maldita Cordilheira dos Andes. PQP! PQP! PQP! Três vezes, cara. PQP! Quatro! Fala sério, nunca mais quero passar sobre a Cordilheira dos Andes. Eu só lembrava daquele filme: “Sobreviventes dos Andes”. Traumático. Enquanto isso, a namorada tranquilona do meu lado… ô raiva!
Após toda essa odisséia, chegamos a Santiago às 2h15 da manhã mas, com o fuso de 1 hora, nosso relógio foi atrasado para 1h15. “Mais ou menos no horário inicialmente previsto”, pensava eu, enquanto xingava todos os antepassados da filha da puta da funcionária da Aerolineas Argentinas que disse isso…
Como conseqüência de ter chegado “mais ou menos no horário inicialmente previsto”, perdemos a reserva que havíamos feito para 21h no Restaurante Giratório e fomos dormir sem jantar, tendo nos alimentado basicamente de Kit Kats e dos sandubas que nos serviram no avião.
No caminho para o hotel, fechamos com o cara do transfer o passeio para Valparaíso e Viña Del Mar em 06.05 e decidimos que o dia 05.05 seria dedicado à cidade de Santiago.
Exaustos, fomos dormir.