Depois da odisséia que foi o início de nossa viagem, eu e a namorada acordamos preguiçosos após uma noite relativamente curta de descanso. Era hora de explorar a capital chilena! Então, para saber como foi, continue lendo!
A primeira etapa do dia foi conhecer o salão do hotel onde era servido o café-da-manhã que, por sinal, era muito bom, com direito a uns pãezinhos que eu nunca tinha visto antes e a ovos mexidos, que eu adoro (com duplo sentido). O mais interessante é que nunca como ovos mexidos em casa, só mesmo em hotéis. Talvez por isso eu ache a parada tão especial. Outra coisa interessante: os chilenos adoçam o suco de laranja. Sei que muita gente faz isso, mas eu nunca tinha visto um hotel fazer isso. É como se eles dissessem prá você: “se quiser tomar suco de laranja aqui, tem que ser do nosso jeito, rapá”. Então tá, suco adoçado prá mim também, por favor…
Devidamente alimentados, partimos para a estação do metrô com o objetivo de chegar ao centro de Santiago. Chegando à estação, de cara fomos objeto do ódio da moça da cabine de compra dos bilhetes. Explico: o peso chileno, moeda oficial do Chile (oooooooooooooooh…), não vale praticamente nada. Para vocês terem uma noção, R$ 1,00 equivale a $ 220. Por causa disso, quando você chega a uma casa de câmbio aqui no Brasil, não é possível encontrar notas baixas. O que aconteceu então? Eu e a namorada tivemos que dar uma nota de $ 20.000 para comprar dois bilhetes de metrô, cuja soma totalizava $ 800. Entenderam a razão do ódio da moça? Mas a culpa não era nossa! A culpa era da…
AEROLINEAS ARGENTINAS! Claro! Raciocinem comigo: se a Aerolineas Argentinas tivessem cumprido o horário dos vôos, nós teríamos chegado a Santiago a tempo de ir ao Restaurante Giratório. Lá, pagaríamos a conta com os tais $ 20.000 e pronto: haveria dinheiro trocado para o dia seguinte! Mas, não! Como vocês já sabem, não foi isso o que aconteceu…
O metrô de Santiago é bastante eficiente e a rede é bem ampla. Praticamente todos os pontos da cidade foram abrangidos, de modo que é perfeitamente possível fazer dos trenzinhos subterrâneos o seu meio de transporte por lá. Outra diferença em relação ao nosso metrô (a primeira é a eficiência) é que os vagões são mais estreitos, o que não chegou a ser um incômodo, pois não pegamos o metrô lotado em momento algum.
Munidos de um mapa da cidade, descemos na estação La Moneda e demos início à nossa jornada. Naquele exato momento descobri que sou um sujeito completamente analfabeto em matéria de mapas e que, se ficasse por minha conta, o primeiro ponto turístico que encontraríamos seria o Teatro Municipal, na Cinelândia…
Mas a nossa sorte é que eu sou um sujeito consciente da minha própria ignorância. E a minha sorte, por outro lado, é que a namorada é bem safa. Pedimos informações a uns guardinhas com roupas esquisitas e, uma vez localizados, pudemos encontrar o ponto de partida do nosso passeio: o Palácio La Moneda. Caminhando até lá, passamos por outros prédios públicos e descobrimos que o centro de Santiago é bem parecido com o centro do Rio de Janeiro, com a diferença de que lá é limpo e aqui não. É sério! Enquanto, por aqui, a gente caminha tendo que saltar uma poça de esgoto aqui e um rato morto ali, em Santiago não se vê um papel no chão. Outra coisa que não se vê também é gente bonita. Ô povo feio, meu Deus… É impressionante que ainda existam chilenos por aí. Sério! Se dependesse de mim, a perpetuação da raça não seria levada adiante. Ok, talvez eu esteja exagerando, mas não é um povo muito bonito mesmo, não…
Nossa intenção era ver a troca da guarda do Palácio, que obedece a um ritual interessante (pelo menos durante os 5 minutos iniciais próprios daquelas coisas que depois de um tempinho ficam um saco e fazem você começar a querer que acabe logo), mas descobrimos que, no mês de maio, as trocas ocorreriam nos dias pares. Como era dia 05…
Descobrimos, também, que os chilenos não respeitam sinais de trânsito. Quase fomos atropelados quando cometemos o desatino de atravessar a rua quando o sinal estava… VERMELHO PARA OS CARROS!!!! Os caras só param o tempo suficiente para você atravessar e pronto, já voltam a andar, mesmo que a luz continue vermelha. Depois de tantas situações assim, comecei a suspeitar de que havia uma permissão na legislação de trânsito para proceder dessa forma. Só isso explicaria tanta falta de educação no trânsito!
Do Palácio La Moneda partimos para uma caminhada pela Passeo Ahumada, que é uma rua de comércio no centro da cidade. Lá estão localizados os famosos café-con-piernas, cafeterias em que as atendentes – sim, sempre mulheres – encontram-se num nível superior em relação ao chão, de um jeito que as suas bundas ficam mais ou menos na cara dos clientes. Você, macho como eu, deve ter figurado a seguinte cena na cabeça: você está lá, no balcão, com uma xícara de café na sua frente, e do outro lado estão passando atendentes como a Juliana Paes, a Cleo Pires, a Alinne Moraes, a Grazi Massafera, as Scheilas Mello e Carvalho, não é, seu punheteiro pervertido? Mas não é nada disso. SÓ TEM BARANGA! Lembra o que eu disse acima sobre os chilenos serem feios? Então… a passagem por lá só vale a título de curiosidade mesmo.
Andamos mais um pouco e eu decidi entrar em uma galeria. Não lembro exatamente o motivo. Eu queria fazer alguma coisa, mas acabei me deparando com uma série de lojas de rock, cara! Tudo muito legal! Camisas muito maneiras de várias bandas. Meu impulso consumista resistiu bravamente (em boa parte por causa da namorada que, com sua vocação para ministra da economia, me aconselhava a não comprar uma série de coisas que, no fim, não fizeram mesmo falta alguma). Aliás, a cena roqueira no Chile, assim como na Argentina, é bem forte. Os caras gostam mesmo! Aonde você for, tem rock tocando. Nem sempre é coisa boa, mas quase sempre é rock. Enquanto, aqui no Brasil, nós (nós uma vírgula, vocês!) estão sempre atrás da última modinha, lá os caras sabem o que é bom e não abrem mão disso! Ponto para os nossos vizinhos!
A fome começou a bater e resolvi comer uma das porcarias típicas do Chile: a empanada. Empanada nada mais é do que o nosso famoso pastel, só que a massa é um pouco mais consistente. Mas é essencialmente a mesma coisa. Naquele momento, cansado de ficar fazendo conversões a todo o momento, resolvi adotar um novo padrão monetário para a minha passagem pelo Chile: minha moeda oficial passou a ser a latinha de coca-cola. A partir daquele instante, todos os meus gastos seriam contabilizados em “X” latinhas de coca-cola. Muito mais prático! Exemplo: “Esse negócio que você quer comprar custa $ 7.500”. Ao invés de pensar “quanto dá isso em real?”, eu simplesmente dizia: “Ok, são 10 latinhas de coca-cola”. Minha vida mudou naquele momento.
Devidamente alimentado – a namorada não quis –, partimos para o museo precolombino. O passeio é interessante e barato ($ 3.000, o que na Celsolândia equivale a 04 latinhas de coca-cola), mas confesso – sem qualquer sentimento de culpa – que não nos chamou muito a atenção. Tanto é que eu e a namorada passamos pelas alas do museu como se estivéssemos em um shopping procurando algum artigo em promoção. Resumindo: é legal, pero no mucho. De lá, fomos diretamente para a Plaza das Armas e para a Catedral de Santiago, que são bonitas, mas em nada diferentes das praças e catedrais que a gente encontra por aqui.
Já era praticamente meio-dia e, de acordo com o nosso roteiro, estava na hora de ir para o Mercado Central, onde almoçaríamos. O Mercado Central é uma espécie de mercado do peixe, como aqueles que a gente encontra na Barra da Tijuca e em Niterói. Não tem nada de muito interessante, mas faz parte de qualquer roteiro turístico em Santiago, além de contar com vários restaurantes, todos eles a preços bem interessantes para quem não pretende gastar muito. A única coisa chata é ter que ficar dizendo “no, gracias” para a cacetada de garçons que ficam enchendo o saco tentando de convencer a almoçar no restaurante deles. Fiquei imaginando quantas vezes deve ter saído porrada entre eles por causa disso. Infelizmente, naquele dia isso não ocorreu. Optamos por um restaurante chamado Donde Augusto, que além de servir uma comida muito gostosa, cobra bem barato. O meu prato e o da namorada (os dois enormes – poderíamos tranquilamente ter dividido), com a gorjeta e as bebidas, saiu por $ 15.000 (20 latinhas de coca-cola). Outra coisa bem legal: os restaurantes chilenos, todos eles, oferecem o couvert como cortesia. Ao contrário do que ocorre aqui, a cortesia não é paga! É cortesia mesmo!
Não pedimos sobremesa, pois não havia espaço para mais nada em nossos estomagozinhos dilatados. Pegamos nossas coisinhas e partimos, de metrô, para a Calle Patronato, que é uma mini-madureira: várias lojinhas ótimas para se comprar presentes (alguns bem baratos, outros nem tanto). Foi quando tivemos a visão. Um oásis no meio do deserto. Estávamos diante de algo mais ou menos como… imaginem que Jack, Kate, Sawyer e a turma toda de Lost tivesse encontrado a saída da ilha, ou que a molecada da Caverna do Dragão tivesse conseguido encontrar o portal que os traria de volta ao nosso mundo sem que a filha da puta da Uni começasse a berrar e convencesse todo mundo a ficar…
Foi o que sentimos quando encontramos o OUTLET DA ELLUS!
Sim, cara! No meio do comércio popular de Santiago, encontramos uma loja da Ellus vendendo roupas a preços irrisórios! Obviamente, entramos! E acabamos comprando cada um uma calça jeans. Só não compramos mais porque não havia tanta coisa que nos agradasse. Mas vale muito a pena. A minha calça saiu por irrisórios $ 20.000, algo em torno de 27 latinhas de coca-cola, menos de R$ 100,00!!!! E pensar que, aqui, essas calças chegam a R$ 400,00… brasileiro é mané mesmo, constatei…
Depois de algumas horas andando pela Calle Patronato, fomos para o último ponto de nosso roteiro naquela parte: a Casa Museo La Chascona, que foi a residência de Pablo Neruda. Nossa falta de conhecimento sobre a cidade, aliada à minha completa inabilidade para a leitura de mapas fez com que eu e a namorada vagássemos tal qual almas penadas pelas ruas de Santiago até que, depois de muito caminhar, chegamos ao local pretendido. Com aquela musiquinha do Cidade Negra na cabeça (você não sabe o quanto eu caminhei…), vislumbramos a casa do homem. Vou te dizer uma coisa: valeu cada passo! Se algum dia vocês forem a Santiago e alguém disser que vocês só podem ir a um único lugar, escolham a casa de Pablo Neruda!
A casa é sensacional! Sabe aqueles lugares em que você chega e simplesmente não quer mais ir embora? Então! A casa do Neruda é assim. Optamos por fazer a visita guiada ($ 2.500, ou 3 latinhas e meia de coca-cola, cada um) e descobrimos várias coisas como, p. ex.: (i) a casa foi concebida como se fosse um navio, de modo que vários dos cômodos faziam referência a partes de uma embarcação; (ii) a casa, na verdade, foi construída pelo Neruda para a sua amante, só vindo a tornar-se sua residência após o divórcio de sua segunda mulher; (iii) durante o regime militar, parte da casa – a biblioteca – foi destruída pela ignorância típica dos regimes autoritários e todos os seus livros foram queimados no meio da rua. O resto eu deixo para vocês ficarem sabendo quando forem prá lá. Vale muito a pena! Encantei-me tanto com o lugar que acabei comprando uma lembrança de lá. Um prato quadrado com um poema do Neruda impresso. Lindão.
Cansados, voltamos para o hotel. Naquela noite, sairíamos para jantar em um restaurante das redondezas, mas acabamos pegando no sono e só acordamos no dia seguinte.
Era hora de partir para Valparaiso e Viña Del Mar!
Tomamos o mesmo café-da-manhã do dia anterior e partimos em direção ao litoral chileno, acompanhados do guia Sergio Martinez, de uma agência de turismo chamada Ekatour, cujos serviços recomendo tranquilamente a todos. Sergio é um sujeito muito espirituoso e brincalhão, além de falar um português muito bom, o que fez com que eu ficasse muito à vontade, já que poderia falar português com ele numa boa. Antes de partirmos, ainda passamos em outro hotel para pegar um grupo de turistas que acabou não participando do passeio. Beleza, só que os cornos não se deram ao trabalho de avisar a agência e a gente só percebeu que eles não iriam mais depois de ficar um tempão esperando no hotel. Os caras simplesmente não apareceram. Odeio gente assim.
No caminho, paramos em um restaurante rústico chamado Los Hornitos de Curacavi, com direito a garçom vestido a caráter, música típica etc. Comi uma empanada de queijo com coca-cola e a namorada, prá variar, não quis comer nada, mas acabou pegando um pedaço da minha comida (ela sempre faz isso, embora o Celso, assim como Joey Tribbiani, doesn’t share food!). O restaurante ainda tem uma lojinha de artesanato dentro e eu quis muito comprar um cantil de madeira com uma capinha de couro para decorar a casa que um dia eu e a namorada pretendemos ter. Só que a minha ministra da economia não permitiu a compra! E então eu fui, triste e sem cantil, para Valparaiso.
Valparaiso, Sergio explicou, por causa de sua zona portuária, já foi uma cidade muito importante para o Chile. Tão importante que quase foi capital do país, o que só não aconteceu por questões geográficas. Mas hoje a cidade já não tem essa importância toda, apesar da atividade portuária ainda intensa. Particularmente, não vi nada de ooooooooooh na cidade. Achei bem feinha. Acabei comprando o primeiro item chileno para a minha coleção de canecas: a caneca de Valparaiso. Mas esse é o único fato relevante que tenho para reportar.
Ah, lembrei! Lá tem a escada do ano! É uma escada com 365 degraus (um para cada dia do ano, ooooooooooooooh) e com quatro descansos, cada um deles representando uma das estações. A escada é imunda e fedida, mas por alguma razão, é um ponto turístico. Tirei uma foto no degrau correspondente ao dia 17 de janeiro, data do meu aniversário, imaginando a quantidade de turistas otários que faz a mesma coisa. A namorada até quis fazer o mesmo, mas como o aniversário dela é em agosto… hehehehehe.
De lá, fomos para Viña Del Mar. Uma parada rápida para tirar retratos junto ao relógio de flores da cidade (sim, igual ao que tem em Petrópolis, não sei quem copiou quem) e fomos almoçar no restaurante do Club Unión Arabe, um local muito chique e agradável, além de caro. O nosso almoço ficou em $ 22.000, algo em torno de 30 latinhas de coca-cola, e a comida não foi nem a metade do que a gente comeu no Mercado Central. Mas é algo que você tem que fazer, pois vale muito a pena visitar o lugar, especialmente por causa do terraço, que tem uma vista muito legal da cidade de Viña Del Mar.
Viña Del Mar é mais bonita do que Valparaiso. Bem mais! É um lugar de praia, mas faz um frio danado nessa época do ano. Então, lá estávamos nós, de calça jeans e casaco na areia. Vocês acreditam que a gente foi até o outro lado do continente e esqueceu-se de tocar na água do Oceano Pacífico? Pois é… gafe… ainda bem que o guia estava distraído, conversando com o motorista. Uma das coisas que a gente achou bem bacana em Viña é que os prédios na beira da praia são construídos de um jeito que todos eles recebam luz direta do Sol. A imagem é como a de uma pirâmide. Os apartamentos não ficam uns em cima dos outros, mas atrás, de modo que nenhum deles faz sombra sobre o inferior. Muito legal!
Na seqüência, fomos para o Museo Fonck, onde fica a imagem do Rapa Nui. É o museu da Ilha de Pascoa. Achei bem mais legal que o museu precolombino e recomendo a visita! Segundo o guia, a tradição da cidade diz que, se você quiser retornar ao Chile, é preciso tocar na imagem do Rapa Nui que fica do lado de fora do museu. Como o sujeito era um gozador, eu e a namorada não botamos muita fé no negócio mas, por via das dúvidas, encostamos na tal imagem (só prá agradar o cara pois, na verdade, a gente não tem lá essa intenção de voltar ao Chile, sabe? Mas vai que a gente resolve voltar sem ter encostado na pedra…).
Uma última parada no Mirante Pablo Neruda para uma panorâmica de Valparaiso e Viña Del Mar e voltamos para o hotel, onde fechamos o passeio para Valle Nevado no dia seguinte.
Quando chegamos ao hotel, vimos que os $ 100.000 levados para Santiago não eram lá muita coisa e resolvemos comprar mais $ 20.000 no shopping perto do hotel. Fiquei impressionado com a facilidade da coisa. Enquanto aqui no Brasil impera a burocratização da coisa, com cópia digital da identidade, preenchimento de formulários e outras medidas peculiares da nossa cultural do papel, lá no Chile você entrega o dinheiro, recebe a moeda que comprou e vai embora. Não querem nem saber o seu nome. Muito bom! Mais um ponto para eles!
Aproveitamos também para comprar protetor solar, conforme havia recomendado o Sergio. Ele explicou para gente que o vento do Valle Nevado é muito frio e, assim como a luz solar, poderia causar algumas queimaduras. Então tá! Continuamos nosso passeio pelo shopping e acabei encontrando uma loja de CD’s muito boa. Para vocês terem uma idéia, encontrei um CD do The Doors lá que eu ganhei do meu amigo Raul há uns 12 anos e nunca mais encontrei por aqui. E assim foi com várias outras bandas, o que mais uma vez me mostrou o quanto a gente é jeca em matéria de música… lamentável!
Prá encerrar o dia, finalmente jantamos no Restaurante Giratorio que, como o próprio nome diz, gira e te dá uma visão de 360° da cidade de Santiago. Só que a coisa não foi tão simples assim… a nossa reserva não constava da lista da hostess, e a gente acabou ficando com uma mesa na ala interior, ou seja, na parte que não fica na janela! Obviamente, fiquei puto! A gente viu o cara do hotel ligando pro restaurante para fazer a nossa reserva! Como é que aquela cachorra disse que não tinha nada? Ódio. Lembrei imediatamente do Seinfeld com aquela história de “make de reservation” e “hold the reservation”. Mas enfim, jantamos, pagamos a conta de $ 20.500, equivalente a mais ou menos 27 latinhas de coca-cola, e voltamos para o hotel, pois era preciso “dormir bem” para a nossa empreitada do dia seguinte.
Acordamos cedo e fomos direto tomar nosso café-da-manhã pois, em poucos minutos, Sergio estaria na portaria do hotel nos esperando. Dessa vez, não pudemos beber leite nem comer nenhum derivado de leite. A razão? Segundo nosso fiel escudeiro, como o Valle Nevado fica a 3.050 metros de altitude, o consumo de leite antes da subida poderia fazer a gente passar mal. No caminho, paramos em uma lojinha para comprar água, chocolate e chiclete, itens indispensáveis para o passeio. De acordo com nosso guia, a água seria para suprir uma deficiência de oxigênio causada pela altitude, o chiclete seria para evitar a dor de ouvido e o chocolate seria para manter a pressão arterial em níveis estáveis. Com medo de morrer, comprei tudo sem perguntar nada.
A chegada ao Valle Nevado é precedida por uma subida estupidamente grande, apelidada pelos chilenos de 40 curvas. Mas ao contrário do que você está pensando, a subida não tem apenas 40 curvas… tem muito mais! Quarenta são as curvas que, de tão acentuadas, fazem você subir o vale numa direção totalmente oposta a que você estava anteriormente. Sério, demora muito prá chegar lá em cima. E olha que não estava nevando! Com neve, o trajeto pode levar horas, já que, com aquilo tudo branco, fica muito perigosa a travessia. Basta você pensar que, sem enxergar nada à sua frente, você pode cair do precipício se resolver se aventurar na descida ou na subida.
Ao chegar lá em cima, além do frio (nem tão grande assim) e de uma vista sensacional, eu e a namorada percebemos que a gente não sentiu efeito algum da altitude. Nada mesmo! Nesse momento fiquei muito feliz por duas razões: primeiro porque eu não ia morrer; segundo porque posso continuar xingando todo mundo da seleção brasileira quando eles pagarem mico contra a Bolívia em La Paz! Quer coisa melhor? Ok, eu também iria querer se fosse você…
Na descida, o estagiário da agência, que nos acompanhava, certamente constrangido por constar que os brasileiros são sinistros, ainda tentou justificar dizendo que a gente não sentiu nada porque dessa vez a pressão atmosférica estava tranqüila etc. e tal. Tá bom, fingi que acreditei…
Ainda lá no alto, fomos até a lojinha do hotel. Sim, existe um hotel no alto do Valle Nevado. Isso porque muita gente vai prá lá esquiar (quando tem neve, seu babaca) e, como vocês podem imaginar, com aquilo ali coberto de neve, e estando todo mundo a mais de 3.000 metros de altitude, ninguém vai querer descer prá dar uma voltinha, né? Então existe um hotel lá em cima, daquele tipo que te oferece todos os serviços, obviamente por um custo considerável. Mas enfim, fomos até a lojinha consumir. Apesar do péssimo atendimento, comprei uma caneca, um chaveiro e um imã de geladeira, pois a camisa que eu gostei só tinha no tamanho Big GG Mamute. A namorada comprou uma camiseta bem bonita e um chaveiro também.
Decidimos almoçar em Santiago mesmo, pois o restaurante do hotel era caríssimo. O restaurante se chama Del Cocinero e fica numa rua chamado Pedro de Valdívia. Perto, muito perto do hotel. O problema é: não existia o número que a gente viu no site do restaurante. A gente rodou, rodou, rodou e nada. Quando finalmente concluímos que o endereço do site estava errado e que era melhor almoçar em outro lugar, começamos a descer a rua até que… ENCONTRAMOS O RESTAURANTE! Cara, a Pedro de Valdívia tem dois lados ímpares! É sério! A gente estava de um lado da rua, mas o restaurante era do outro. Poderíamos ficar uma semana procurando a porra do restaurante e não íamos achar nunca…
Logo que avistei o letreiro, reparei numa palavrinha que sempre me provoca calafrios: “Bistrô”. Bistrô foi o termo encontrado pelos donos de restaurante para te venderem pouca comida por um preço absurdo. Dito e feito: $ 16.000 (21 latinhas) por um prato de nhoque e outro de macarrão com frutos do mar. Muito gostosos, é verdade, mas muito caro. O mínimo que poderia ser é gostoso… o detalhe pitoresco do almoço foi que, tomados por um sentimento digamos assim… europeu, eu e a namorada resolvemos almoçar na calçada. Só que ela continuava com o casaco que tinha levado para o Valle Nevado, enquanto eu havia deixado o meu no quarto do hotel. O resultado foi que eu senti um frio sinistro! Porque eu não pedi prá entrar é que continua sendo um mistério…
Devidamente alimentados, fomos para o Parque Metropolitano de Santiago passear de teleférico, sugestão que dei unicamente para agradar a namorada e da qual me arrependi profundamente. Que medo! Era óbvio que isso iria acontecer. Eu não tinha noção de que aquela porra subisse tão alto! PQP! Fui pianinho até lá em cima, onde encontramos a imagem de Immaculada Concepcion de Santiago. A vista lá de cima era linda, mas eu estava disposto a não entrar novamente naquele teleférico nem à porrada. Imaginem a felicidade que tomou conta de mim quando descobri o trenzinho funicular! É um trenzinho que leva os passageiros em total segurança até a parte de baixo do parque. Adorei! Desceríamos um pouco longe do hotel, mas poderíamos pegar o metrô! Só que eu queria ir ao Jardim Zoológico…
Problema: nós pegamos o funicular descendo. Para entrar no zoológico, era preciso pegar o funicular subindo. Até aí, nada demais, pois o ingresso que você compra – tanto para o teleférico quanto para o funicular – te dá direito a uma viagem de ida e volta. Mas a gente só tinha $ 4.000 e as nossas entradas no zoológico custariam exatamente… $ 4.000! Resumindo: indo para o zoológico, as únicas opções que a gente teria seriam: ir a pé até o hotel, o que significava andar prá cacete, ou pegar o funicular subindo para descer de teleférico e sair na Pedro de Valdívia, bem mais perto.
Então lá fui eu no teleférico de novo… contudo, antes de entrar, uma pausa para comprar mais uma caneca e uma réplica do Rapa Nui, eleita a lembrança oficial do Chile que Celso e namorada terão na casinha que um dia eles vão comprar.
A descida foi igual à subida: não passava nem vento com manteiga onde vocês estão pensando.
No caminho para o hotel, pausa para comprar mais um pouquinho de pesos chilenos e, então, dar início à tarefa mais trabalhosa do dia: arrumar as malas! Sim, porque com a quantidade de coisas compradas em solo chileno e no free shop, organizar aquilo tudo dentro de nossas malas seria uma verdadeira missão impossível (lembrando que a restrição de líquidos a bordo de aviões impedia que a gente levasse os perfumes dos amigos e familiares aproveitadores, ops, queridos na bagagem de mão). Mas deu tudo certo. Uma das minhas habilidades de que mais me orgulho é a capacidade de organizar espaços. Não há espaço perdido quando eu resolvo arrumar as coisas. Sério! Deu tudo certo!
Jantamos no Pizza Hut (que não vende pizza doce) e voltamos para o hotel, pois no dia seguinte, nosso vôo para Buenos Aires sairia cedo.